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Clube dos Cinco

Clube dos Cinco: Vilãs em filmes de horror

Vilãs em filmes de horror

Quando comecei esse especial de Halloween, tínha muito clara a vontade de destacar o protagonismo feminino. Quer ele estivesse ligado a estereótipos clássicos ou às funções em um filme. Entretanto, quando comecei a pensar sobre os vilões do cinema de horror, somente nomes masculinos surgiram na minha cabeça. Freddy Krueger, Hannibal Lecter, Jason Voorhees, Norman Bates, Chucky, Jigsaw… Mas é claro que eu não me conformei. Foi exatamente desse não conformismo que nasceu o Clube dos Cinco: Vilãs em filmes de horror.

Pouco depois de fazer esse caminho, soube que isso não acontece só comigo. Escutando um podcast do República do Medo sobre Aileen Wuornous descobri que ela foi tratada como a primeira mulher serial killer dos EUA. Porém, esse  fato não é verdadeiro e outras foram citadas no programa. Além disso, um dos membros da bancada explicou que Aileen foi vendida dessa forma pela mídia porque as demais são ignoradas, visto que existe um visão de que as mulheres não são capazes de cometer crimes tão bárbaros quanto os homens. Especialmente se esses crimes estiverem ligados à violência física extrema e à crueldade. 

Além disso, acabei me lembrando que uma série de produtos da cultura pop afirmam que as armas femininas para cometer assassinatos são sempre mais sutis, como venenos. Mas isso também não é uma verdade. Portanto, esse Clube dos Cinco tentará mostrar para vocês que, no âmbito do cinema, as mulheres são sim capazes de ser boas vilãs, cometendo atos tão vis quantos os mais notórios serial killers da sétima arte. Porém, longe da gente querer glorificar esse tipo de comportamento. Quero apenas destacar que as personagens femininas, quando se trata de vilania, também acabam ficando em segundo plano, mas podem ser interessantes e desafiadoras.

Bora lá?

Rhoda Penmark, de A Tara Maldita (The Bad  Seed, 1956)

Vilãs em filmes de horror
Onde assistir: Infelizmente, não encontramos opção online

Para abrir o nosso Clube dos Cinco, escolhemos Rhoda Penmark (Patty McCormack), do filme A Tara Maldita. Se você ainda não assistiu ao longa, não se deixe enganar por essas trancinhas loiras. O erro de boa parte dos personagens, principalmente de Christine (Nancy Kelly), a mãe de Rhoda, é exatamente esse.

A vilania de Rhoda começa a se manifestar quando a sua professora entrega uma medalha para outro colega de sala. Pouco depois do ocorrido, ela é vista relatando à sua mãe, de um jeito irritado e contrariado, que merecia mais do que ele. Aos poucos, vamos percebendo que não se trata somente de uma birra de criança. Rhoda realmente está disposta a fazer de tudo para colocar as mãos na medalha, inclusive matar o seu dono.

Além do fato de se tratar de uma criança, Rhoda e A Tara Maldita acabaram no nosso Clube dos Cinco porque a garotinha é uma representação bastante eficiente do mal. Especialmente de um mal que ainda não aprendeu a domar os seus impulsos. Afinal, ela é cercada de afeto e de pessoas para lhe dizerem o quanto ela é especial. Logo, Rhoda não tem motivos para acreditar em nada que seja oposto a isso e, portanto, crê que é realmente merecedora do prêmio perdido. 

Porém, ao longo do filme a gente vê essa maldade escalar e acompanha os conflitos de Catherine, especialmente quando ela começa a pensar a respeito de situações anteriores e do possível envolvimento que a sua filha. Como nós estamos falando da década de 1950, os crimes de Rhoda nunca são mostrados de forma explícita, deixando para a nossa imaginação completar as lacunas. Isso, porém, pode ser ainda mais poderoso do que ver as atitudes da menina, de modo que os realizadores não só conseguiram driblar a censura da época de forma eficiente, como também fazer de A Tara  Maldita algo que traz questionamentos poderosos a respeito da maldade e da possibilidade de que esse traço seja algo com o qual se nasce.  

Annie Wilkes em Louca Obsessão (Misery, 1990)

Vilãs em filmes de horror
Onde assistir: Apple TV+

Se a vilania de Rhoda é sempre executada fora de cena, a gente não pode dizer o mesmo sobre Annie Wilkes, brilhantemente interpretada por Kathy Bates. Assim, nós vemos a personagem comentado atos de puro sadismo e cheios de violência gráfica (além da violência psicológica) por um fiapo de motivo. Caso você nunca tenha assistido Louca Obsessão, basicamente, Annie decide torturar o seu escritor preferido, Paul Sheldon (James Caan), por ter matado um personagem que ela gostava.

Além disso, outro ponto que me fez incluir Annie Wilkes nessa lista foi o fato de que a relação entre ela e o autor representa uma inversão de papéis. É comum que a gente veja em produtos de horror uma mulher a mercê de um homem. Seja fisicamente presa a um espaço ou somente pelo pavor de que algo pior aconteça caso ela decida ir embora. É só pensar, por exemplo, em Ata-me, em Bom Dia, Verônica ou, forçando um pouquinho a barra, em Jogo Perigoso. Mas não em Louca Obsessão. Aqui, Annie é o algoz  e não existe limites para o que ela será capaz de fazer com Paul.

Tudo isso faz com que o filme seja completamente desconfortável de assistir. Esse desconforto, por sua vez, é pontuado pela ambientação. Para além do fato de que o filme se passa quase integralmente em um único ambiente, os planos filmando montanhas cheias de neve fazem com que a gente se questione o que Paul faria caso conseguisse escapar. Afinal, ele parece não ter para onde ir. Além disso, a trilha sonora pontua com eficiência os momentos mais tensos, sem soar didática ou como uma espécie de manipulação. 

…Mas nada disso seria suficiente para colocar Annie Wilkes entre as grandes vilãs em filmes de horror se não fosse o trabalho primoroso de Kathy Bates. O seu rosto se transfigura em uma série de expressões demoníacas e revela, em camadas, todas as facetas da solidão e da maldade de sua personagem. Impecável. 

Geum-ja Lee em Lady Vingança (Chinjeolhan geumjassI, 2005)

Lady Vingança
Onde assistir: Darkflix

Embora muita gente afirme que Lady Vingança, o fechamento da trilogia de Chan-wook Park, é o filme mais fraco entre os três, eu discordo. E muito dessa discordância se deve à personagem central, Geum-ja (Lee Yeong), que é uma das melhores vilãs que já assiti e domina o filme com punhos de ferro. Ainda que a gente tenda a ser simpático aos motivos dela para estar procurando vingança, ao mesmo tempo, não tem como deixar de entender que existe uma alta dose de maldade em seus atos. 

A título de contextualização, Geum-ja foi presa por um crime que não cometeu quando ainda era jovem. Assim, ela passou 13 anos encarcerada. Durante esse tempo, a protagonista de Lady Vingança começou a tramar um intrincado plano para se vingar dos culpados pela sua desgraça. Esse plano, entretanto, não estava ligado somente ao que ela faria quando saísse da prisão, mas ao seu comportamento lá dentro e a como ela usaria cada uma daquelas pessoas enquanto peças. 

Investindo em um comportamento dúbio, Geum-ja construiu para si uma persona que, ao mesmo tempo em que inspirava bondade, fazia com que as demais detentas sentissem medo. E quando a vemos já fora da cadeia, a sua figura sempre indiferente e que dirige aos demais palavras e olhares cortantes, demonstra que quase todos os seus traços de humanidade foram arrancados durante aqueles 13 anos. 

O grande trunfo de Lady Vingança, que ajuda bastante na construção de Geum-ja, é o fato de que a sua história é apresentada em fragmentos. Entre idas e vindas. Com um estilo refinado e planos que beiram o sublime, Chan-wook Park entrega uma violência que é muito mais sugerida do que mostrada (embora também seja), em um pacote estilizado e com a sua assinatura, fechando brilhantemente a trilogia e colocando a protagonista entre as maiores vilãs em filmes de horror.

A Mulher em A Invasora (L’Intérieur, 2007)

A Invasora
Onde assistir: Darkflix

Entre todos os filmes selecionados para esse Clube dos Cinco, sem dúvidas, A Invasora é o mais apavorante. O longa não poupa violência gráfica para contar a história da Sarah (Alysson Paradis), uma mulher grávida que tem a sua casa invadida. E isso não poderia ser diferente, já que o longa faz parte do Novo Extremismo Francês.

Um dos grandes acertos de A Invasora é fazer com que tudo pareça gratuito. Assim, a Mulher (Béatrice Dalle) é alguém que parece torturar, agredir e matar por puro prazer sádico. A gente não sabe muito sobre ela até os momentos finais, naquela clássica cena da “revelação dos motivos”, tão presente no horror. Logo, somos apresentados a sua vilania e crueldade antes de conhecer o que levou a Mulher a tomar aquele caminho. Portanto, não existe qualquer material para que a gente sinta empatia pela vilã desse filme. Na verdade, a torcida fica toda para Sarah e isso persiste mesmo após a revelação citada. 

Para mim, não saber nada sobre o que está acontecendo em cena deixa tudo ainda mais tenso. Afinal, apesar de ser surreal imaginar alguém invadindo a sua casa e te torturando só porque sim, é algo possível. É só a gente pensar, por exemplo, em quantos serial killers reais não têm qualquer tipo de motivo para matar as suas vítimas. A necessidade de explicação é algo que está mais ligado aos produtos de entretenimento do que ao real. Então, esse realismo é um dos pontos que motivou a inclusão da Mulher nesse Clube dos Cinco: Vilãs em filmes de horror.

Red em Nós (Us, 2019)

Nós
Onde assistir: Telecine Play

Embora todos os casos listados até aqui sejam completamente apavorantes, Red (Lupita N’yongo), de Nós, é um caso bem específico e, talvez, o mais desconcertante. Afinal, já imaginou ter um duplo maligno, que está determinado a dizimar a sua família? Pois é. E é exatamente isso que a gente encontra no segundo filme de Jordan Peele. 

Caso você ainda não tenha assistido Nós, recomendo que pare a leitura exatamente nesse ponto. Será impossível abordar Red sem entregar uma série de spoilers do filme.

Entre discussões sociais e uma série de perseguições intensas, mais para o final de Nós, é revelada a origem dos clones. Então, descobrimos que na cena em que Adelaide se perdeu dos seus pais em uma casa de espelhos, ela foi substituída por Red. Logo, a sua “versão original” passou a ocupar uns túneis, assumindo o lugar de “clone do mal”. E é exatamente por ter experienciado a vida na superfície que ela se torna a líder do bando. Afinal, Red era a única que tinha conhecimento de todas as injustiças vividas no subsolo, sendo capaz de inflamar um desejo de vingança.

Devido à sua mistura entre conhecimento da vida humana e ódio pelo que lhe aconteceu, Red é uma vilã sádica. Isso acontece pelo desejo de infligir o sofrimento imposto a ela pela troca com Adelaide a todos os humanos. Entre sorrisos cínicos e expressões de loucura absoluta, a personagem permanece no nosso imaginário por meses depois de assistir Nós. Palmas para o trabalho de Lupita N’yongo e para o excelente roteiro do filme na construção de uma das melhores vilãs dos últimos anos.

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PS: Esse lugar quase foi ocupado por Rose (Alisson Williams), mas isso entregaria a grande virada de Corra! (Get Out, 2017). No caso de Nós, Red já é posta como vilã desde os 20 primeiros minutos. Então, seria menos problemático abordá-la em uma lista de vilãs em filmes de horror.

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