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Clube dos Cinco

Filmes de terror dirigidos por mulheres

Filmes de terror dirigidos por mulheres
Clube dos Cinco: Filmes de terror dirigidos por mulheres

Caso você faça uma breve pesquisa no Google com as palavras-chave “desigualdade entre homens e mulheres em Hollywood”, encontrará uma série de reportagens a respeito de salários discrepantes. Além disso, não será complicado encontrar matérias apontando que essa disparidade também está ligada à questão racial. E tudo isso não reflete apenas quem está na frente das câmeras, emprestando o seu carisma às produções e contribuindo para levar as pessoas aos cinemas.

Se a gente pensa em quem exerce funções “invisíveis”, essa desigualdade se amplia. Para citar a direção, ainda esse ano foi divulgada pelo UOL uma reportagem afirmando que o número de diretoras em Hollywood dobrou de 2018 para 2019. Embora a notícia possa parecer animadora à primeira vista, entre os 100 melhores filmes lançados no ano em questão, 11% pertenciam às mulheres. Ou seja: um número bem baixo. 

Quando pensamos sobre o cinema de horror, o foco deste Clube dos Cinco, o número de mulheres parece ainda menor. Vamos fazer um exercício: tente pensar em um grande nome de qualquer subgênero de terror. Eu não estou dizendo grande no sentido de consolidado e cujo legado ficou marcado no imaginário de quem consome filmes desse nicho. Isso seria desonesto considerando as oportunidades dadas às mulheres. Quando eu digo grande, quero dizer apenas interessante, cuja produção você acompanha com regularidade. 

Pois é: eu sei. É um exercício complexo mesmo para quem possui uma boa bagagem. Porém, isso não significa que não existam boas diretoras. Significa apenas que elas, assim como em todos os outros estilos, precisam fazer o triplo para ter quase a metade do reconhecimento. Dessa forma, hoje, tentarei mostrar que nada disso está ligado exatamente à qualidade dos seus trabalhos. Então, tenha um pouco de paciência com essa introdução longa porque ela é necessária para o Clube dos Cinco: Filmes de terror dirigidos por mulheres.

A representação feminina no horror: o rape and revenge da década de 1970

A Vingança de Jennifer
Imagens do filme A Vingança de Jennifer

Antes de abordar o trabalho das diretoras selecionadas, é necessário falar um pouco sobre como a representação feminina funcionava no terror nas décadas de 1970 e 1980, responsáveis por consolidar uma série de estereótipos que até hoje estão entranhados na visão de alguns. Isso é importante para mostrar os avanços e mudanças em relação ao trabalho das cinco eleitas.

Por uma questão cronológica, primeiramente abordarei a década de 1970, deixando claro que, por ora, estou focando nos Estados Unidos. Para ilustrar o que quero dizer, selecionei o filme A Vingança de Jennifer (I Spit on Your Grave, 1978), um “rape and revenge” que serviu para moldar muita coisa desse “subgênero”, tão infame e problemático. 

O que é rape and revenge?

Caso você não saiba do que se trata, o “rape and revenge” consiste em um estilo de filmes no qual a personagem feminina é brutalmente estuprada e, posteriormente, ressurge buscando vingança contra os seus algozes. Frequentemente afilados ao exploitation e, claro, ao terror, os filmes que se enquadram nesse subgênero podem ser divididos em três atos.

No primeiro, a personagem feminina é atacada de forma brutal, podendo até mesmo ser torturada; no segundo ato assistimos à sua tentativa de sobrevivência; e, no terceiro, tem-se a grande vingança. Claro, existem algumas subversões, mas vocês entenderam a fórmula. 

A Vingança de Jennifer e o olhar masculino

Todos esses elementos são bastante claros em A Vingança de Jennifer, filme que segue exatamente a estrutura descrita.  Entretanto, a gratuidade das cenas de violência é algo chocante. E não somente para uma audiência mais moralista e pouco acostumada ao “rape and revenge”. Tudo parece pensado somente para o “choque pelo choque”. E desde os enquadramentos escolhidos nas cenas de estupro, tem-se a sensação de que o filme é voltado para o olhar masculino, quase como se quisesse tornar a barbárie excitante para os homens – algo que também traz reminiscências de um nicho bem específico de pornografia (o que não é assunto para agora).

Porém, isso não significa que todo filme “rape and revenge” possua esses mesmos problemas. Entre os cinco selecionados, fiz questão de incluir um que se encaixa nessa categoria para demonstrar que dá para ser diferente. O problema é a perspectiva. Quando se pensa em A Vingança de Jennifer e em todo o seu legado (a franquia Doce Vingança), o que grita é a presença masculina forte atrás das câmeras. Logo, a gente tem homens tentando retratar uma dor normalmente associada ao universo feminino e, bem, o resultado é isso que já destaquei.

A representação feminina no horror: o slasher da década de 1980

Filmes de terror dirigidos por mulheres
Imagens do filme Acampamento Sinistro

Seguindo adiante para a década de 1980, seria impossível não abordar os slashers, subgênero do terror nascido em 1978 e consolidado no período citado.

A história todo mundo já conhece: um grupo de adolescentes é perseguido de forma implacável por um assassino mascarado, que deseja dizimá-lo. Além disso, todo mundo conhece também a ordem das mortes: o casal que faz sexo na primeira cena; a moça libidinosa que bebe, fuma e não liga muito para as opiniões alheias; o personagem que funciona como alívio cômico… E, no fim, aquela garota que pode ser considerada um “retrato da virtude” é a responsável por vencer o psicopata, a final girl. 

Assim, o slasher de 1980  adota algumas perspectivas machistas. A mais gritante delas está ligada ao “mostre os peitos e morra”, expressão de Rick Worland. Por se tratar de um subgênero inicialmente voltado para o público adolescente, tudo isso soa como um alerta moralista e uma tentativa de controle, o que não justifica algumas mortes bastante gráficas e desnecessárias de personagens femininas, caregadas de misoginia. Uma via mais saudável seria a educação sexual e, pasmem, o diálogo.

Nesse sentido, a gente pode destacar Acampamento Sinistro (Sleepaway Camp, 1983), um dos principais títulos do slasher. Em uma determinada cena, uma personagem morre por ter um babyliss introduzido (enquanto ligado) em sua vagina. E adivinhem só: ela era justamente a personagem sexualmente ativa, que estava constantemente se insinuando para os garotos. A gente também pode pensar, por exemplo, na motivação do assassino do primeiro Sexta-Feira 13 (Friday 13th, 1980). E isso definitivamente não para por aí.

Mas, assim como no caso do “rape and revenge”, nada disso faz do slasher um estilo essencialmente machista. Volto a repertir que o problema está no olhar. Portanto, tentei também reservar um espaço para mostrar como na própria década de 1980, procurando bem, era possível encontrar exemplos de slashers que “nadassem contra a corrente”. 

A representação feminina no horror: de 1990 até os dias atuais

As novas final girls
Sidney Prescott (Pânico), Jay (Corrente do Mal), Tree (A Morte te Dá Parabens) e Grace (Casamento Sangrento)

A partir da década de 1990, as formas de representar o feminino no horror mudaram um pouco. Curiosamente, as mulheres passaram a ganhar mais espaço atrás das câmeras a partir desse período, que foi berço de uma série de cineastas. Elas passaram a ocupar os seus lugares em gêneros “essencialmente masculinos” e, assim, as perspectivas foram se alternando e diversificando. Apesar de não estar ligada exatamente ao horror, Katheryn Bigelow é um desses nomes de 1990.

Assim, todos os estereótipos consolidados anteriormente, aos poucos, foram se desfazendo (na verade, ainda estão em processo). Porém, pensar o cinema de forma linear, no caso da representação feminina, não é algo que gosto de fazer. Prefiro acreditar que existem exemplos bons e ruins em cada período, sem condenar ou generalizar a partir dos meus “olhos de 2020”. Até porque isso é cômodo e bobo.

Logo, para cada Sidney Prescott (Neve Campbell em Pânico) existe uma mocinha que precisa ser salva e parece incapaz de pensar por si mesma. Mas, conforme o tempo passa, isso se torna menos gritante e menos acentuado. É só pensar, por exemplo, em quantas final girls com autonomia nós tivemos ao longo da última década: Jay, de Corrente do Mal; Tree, de A Morte te Dá Parabéns; Grace, de Casamento Sangrento e, porque não, Cecília, de O Homem Invisível

Portanto, com todo esse background em mente, vou partir agora para os cinco filmes que escolhi para mostrar como as mulheres representam outras mulheres no cinema de horror e como constroem as suas narrativas. Tentarei deixar claro os momentos em que, para nós, a perspectiva feminina fez toda a diferença e como essa diferença se manifesta. 

Prontos? Vem com a gente conferir o Clube dos Cinco: Filmes de terror dirigidos por mulheres!

A Vampira de Veludo (The Velvet Vampire, 1971), de Stephanie Rothman

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Onde assistir: YouTube

Ainda na introdução do texto, citei os filmes de exploitation, populares na década de 1970. Porém, sem trazer uma explicação do que seriam essas produções. Então, para manter o didatismo e assegurar que todo mundo possa acompanhar o texto, chegou a hora de falar sobre esse assunto.

O exploitation da década de 1970: uma breve explicação

Em linhas gerais, a gente pode classificar como pertencentes a esse gênero longa-metragens que façam uso de características mórbidas ou sensacionalistas para retratar os seus temas. Logo, eles contam com vários exageros, seja em suas cenas de sexo ou na quantidade de sangue. Além disso, algumas pessoas afirmam que as suas qualidades estéticas são duvidosas, já que o exploitation também é associado ao baixo orçamento. 

Foi por funcionar como um somatório de todas essas características que A Vampira de Veludo acabou entrando para a nossa lista. Dirigido por Stephanie Rothman, o filme é bastante obscuro mesmo para os que gostam de horror. Indo além, aqueles mais apegados a roteiro podem facilmente torcer o nariz para o que encontram na produção. Porém, quem possui uma visão mais abrangente de cinema, compreendendo que essa arte vai além da narrativa e é, na essência, imagem, tem tudo para gostar do que vai encontrar. 

A Vampira de Veludo: subversão do papel da mulher no exploitation

Em termos de sinopse, A Vampira de Veludo gira em torno de Lee (Michael Blodgett) e Susan (Sherry Miles), um jovem casal que é atraído por Diane (Celeste Yarnall), uma vampira, para a sua casa situada no meio do deserto. No local, ambos acabam se vendo seduzidos pelo jeito misterioso da anfitriã e, ainda que sintam o ímpeto de deixar a casa, não fazem nada para escapar das presas de Diane. Então, eles ficam cada vez mais envolvidos em seu jogo de sexo, sangue e sedução. 

Cheio de imagens psicodélicas e desconexas, o filme de Stephanie Rothman explora a sexualidade dos personagens e parece mais interessado em passear pelo que as paisagens têm de onírico do que fornecer alguma explicação do que está acontecendo. Assim, a diretora cria uma sensação de “fantasia de horror”, com elementos bastante mórbidos, e que envolve quem assiste em um clima de voyeurismo e medo – especialmente pela segurança de Susan.

Mas, o que consolidou o lugar de A Vampira de Veludo nesse Clube dos Cinco: Filmes de terror dirigidos por mulheres está ligado à subversão. Se no cinema de exploitation as mulheres frequentemente apareciam como vítimas, sempre colocadas em situações perigosas, aqui, elas são o perigo. Para além disso, Diane e Susan são senhoras de suas vontades e o seu desejo não passa pelos filtros de Lee, tampouco depende da sua presença. Tudo parte delas e é feito como elas querem e quando elas querem. 

O Massacre da Festa do Pijama (The Slumber Party Massacre, 1982), de Amy Holden Jones

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Onde assistir: YouTube

Os estereótipos do slasher estão todos ligados à figura das mulheres.  Mas, salvo a final girl, as demais personagens estão ali para servir a uma única função: morrer de forma trágica e, por vezes, misógina.

Assim, os homens dos longas desse subgênero tendem a “durar mais”, executando uma função de protetores, responsáveis por conduzir aquela que vai vencer o assassino até o seu destino. Mas não em O Massacre da Festa do Pijama.  Dirigido por Amy Holden Jones, o filme apresenta uma série de piadas (bem implícitas) e pequenas subversões do slasher. 

A trama, assim como em qualquer outro filme do subgênero, é bem simples: depois que os pais de Trish (Michelle Michaels) viajam, a garota convida as suas amigas da escola para uma festa do pijama. Então, completamente sozinhas na casa, elas passam a ser caçadas por um maníaco que escapou da prisão. Não existe qualquer tipo de presença masculina e as moças precisam achar meios de se defender. 

A subversão em O Massacre na Festa do Pijama

Para além de trazer mulheres lutando, O Massacre na Festa do Pijama acabou entrando para a nossa lista pelas pequenas ironias que Amy Holden Jones conseguiu inserir em seu filme, destacando como os personagens masculinos desse subgênero podem ser especialmente toscos. Assim, em uma determinada cena, as meninas estão no quarto e olham uma revista de gosto duvidoso com homens nus. A sequência é engraçada exatamente pelas altas doses de ridículo, seja nos comentários ou nas fotos, mas o que a torna tão memorável e efetiva é exatamente o que ela traz de familiar. Afinal, nós já vimos essa cena, mas com garotos.

Além disso, os rapazes presentes em O Massacre na Festa do Pijama são ainda mais estereotipados e caricatos do que se poderia esperar. Escrevendo-os todos como virgens desesperados por sexo, que fariam qualquer coisa para ver seios, Rita Mae Brown, a roteirista do filme, faz com que eles se tornem objeto de escárnio. Ela também deixa claro que mesmo que Trish e suas amigas precisassem de ajuda, eles seriam inúteis devido à quantidade de sangue bombeada para o pênis, que com certeza compromete o funcionamento do cérebro. 

Por fim, mais para o desfecho do longa-metragem, a gente tem mais uma subversão das convenções do slasher. Afinal, não bastava colocar mulheres em uma posição de “poder”, ridicularizar os personagens masculinos e retirar a máscara e os motivos do assassino. Era necessário ainda demonstrar que aquelas meninas tinham força o suficiente para que mais do que uma se tornasse a final girl. Porém, dar mais detalhes seria um spoiler. Mas, definitivamente, foi o que sedimentou o lugar desse longa no nosso Clube dos Cinco: Filmes de terror dirigidos por mulheres.

Garota Sombria Caminha pela Noite (A Girl Walks Home  Alone at Night, 2014), de Ana Lily Amirpour

Garota Sombria Caminha Pela Noite
Onde assistir: Globoplay

O meu primeiro contato com Ana Lily Amirpour, a diretora de Garota Sombria Caminha pela Noite, foi através de Amores Canibais (The Bad Batch, 2016). Embora eu não tenha gostado do longa, a primeira meia hora é tão interessante (estética e narrativamente), que me instigou a conhecer mais do trabalho da diretora. E que bom. Porque o filme que integra o nosso Clube dos Cinco: Filmes de terror dirigidos por mulheres é um verdadeiro achado. 

Filmado em preto e branco e quase sem diálogos, Garota Sombria conta a história d’A Garota (Sheila Vand), uma vampira solitária e skatista que vaga pelas ruas de Bad City. Nesse local, ela atua como uma espécie de patrulheira que não mostra misericórdia com criminosos. Observando tudo atentamente, a protagonista é uma figura que, na mesma medida, nos gera curiosidade e medo. Porém, é necessário estar atento aos detalhes para conhcê-la, já que o roteiro do filme, escrito pela própria Amirpour, não se interessa por explicações mastigadas.

Em meio a um cenário industrial, marcado pela degradação, Garota Sombria se torna relevante pelas várias cenas que representam uma “reparação histórica”. Por exemplo, em um determinado ponto, a protagonista caminha de um lado da rua e percebe que do outro um homem está assustado com a sua presença. Ele, então, desacelera o passo. Ao notar o que ele está fazendo, A Garota toma a mesma atitude, acuando cada vez mais o sujeito e tornando a sequência quase engraçada.

Por se tratar de um filme que depende muito da expressividade dos atores, Garota Sombria pode não agradar a todos os gostos. Mas, se você está interessado em uma experiência mais voltada para o sensorial e que usa  recursos como a trilha sonora para atingir esse efeito, é muito válido conhecer o trabalho de Ana Lily Amipour.

O Convite (The Invitation, 2015), de Karyn Kusama

O Convite
Onde assistir: Netflix

Quem está acompanhando o nosso especial de Halloween desde o começo, não é nenhum estranho ao nome de Karyn Kusama. Antes de ser elogiada por O Convite, filme escolhido para integrar o Clube dos Cinco: Filmes de terror dirigidos por mulheres, Karyn dirigiu o infame Garota Infernal (Jennifer’s Body, 2009). Mas, abandonando o tom de sátira de Garota Infernal e enveredando por um caminho mais maduro, Kusama nos apresenta em O Convite a uma história com seitas de auto-ajuda e mágoas mal resolvidas que vem à tona exatamente quando os personagens estão todos presos ao mesmo espaço físico. 

Dois anos depois de perder o seu filho de forma trágica, Will (Logan Marshall-Green) e Eden (Tammy Blanchard) se reencontram. Ambos seguiram com as suas vidas e possuem novos parceiros na ocasião em que ela o convida para um jantar em sua nova casa. Construindo um clima tenso e incômodo, Kusama deixa claro através da trilha sonora que algo trágico pode acontecer a qualquer momento. Além disso, apostando em altas doses de constrangimento e desconforto, a diretora faz com que a gente desconfie o tempo todo que o novo marido de Eden pode não ser um cara tão legal assim. 

O “louco que não superou o trauma”: uma pequena subversão

É possível perceber três atos dentro do filme. O primeiro deles, muito dinâmico, serve para explicar o que cada um daqueles personagens está fazendo no jantar. Já no segundo ato, que é um pouco mais arrastado, a diretora cuidadosamente constrói o seu clímax, entrecortando as cenas da casa com flashbacks. Essa escolha é bastante sábia, visto que ajuda quem assiste a questionar a sanidade de  Will e sem isso o restante do filme não seria tão efetivo. Essa perspectiva de colocar o homem como “louco que não superou o trauma” soa como uma pequena subversão, já que em histórias semelhantes essa caixinha é ocupada pelas mulheres.

Então, no terceiro ato, tudo se acelera novamente. Descobrimos o que está acontecendo de verdade e até vemos um clichê ou outro, mas não faz diferença. Por mais que seja possível prever a reta final de O Convite, ainda considero o longa um bom exemplo de filme de terror dirigido por mulheres.

Vingança (Revenge, 2017), de Coralie Fargeat

Vingança
Onde assistir: Telecine Play

Ainda na introdução, prometi reservar um espaço para abordar um “rape and revenge” dirigido por uma mulher. E essa hora chegou. Vingança, de  Coralie Fargeat, é exatamente isso, mas serve como uma prova de que o olhar feminino faz toda a diferença para que o subgênero não seja mera exploração de cenas chocantes e corpos desnudos. Aliás, já que estamos falando em nudez, nesse filme ela fica por conta do protagonista masculino e é tão explícita quanto o que os realizadores da década de 1970 faziam com as mulheres em suas produções. 

Em termos de enredo, Vingança conta a história de Jen (Matilda Lutz, e percebam a referência). A jovem é amante de um homem rico e é levada por ele para um retiro de caça no deserto, que contará com a presença de mais dois amigos dele. A todo o tempo, a gente sabe que algo vai dar errado e exatamente o que será esse “algo”, mas isso não diminui a tensão de acompanhar a narrativa.

O que separa Vingança dos outros “rape and revenge”

Ainda no primeiro ato do longa, propositalmente, Fargeat e Lutz fazem questão de retratar Jen enquanto uma mulher frívola. Quase como se estivessem tentando fazer com que quem assiste pensasse que, de alguma forma, ela merece a violência que sofre. E isso é tão efetivo e bem feito que na cena da piscina, ainda na primeira noite do retiro, o espectador não consegue evitar de pensar que sabe exatamente onde aquela dança sensual vai dar. 

Dito e feito. No dia seguinte, quando o amante de Jen se ausenta, ela é violentada por um dos seus amigos e o outro é conivente com o ato. A cena, porém, não é mostrada. Nós vemos tudo o que a antecede e tudo o que acontece depois, especialmente a protagonista chorando. Além disso, também ficamos sabendo sobre o estupro porque Jen relata o ocorrido para o seu amante que, claro, toma a decisão de se aliar com os dois homens e tentar matá-la. 

E é então que, simultaneamente, têm início a sobrevivência e a vingança. Através de cenas gore e de uma estética que parece um cruzamento de Mad Max: Estrada da Fúria com Planeta Terror, Coralie Fargeat faz com que a gente acompanhe Jen se tornando alguém letal e movido pela força do ódio.

Em cenas marcadas pela violência explícita, que demonstram com clareza a herança direta do  New French Extremity, Vingança nos leva por uma jornada completamente diferente do que se tem em qualquer outro “rape and revenge” e prova que podem existir bons títulos mesmo em subgêneros historicamente problemáticos. Tudo depende de quem conduz e das escolhas feitas ao longo do filme. Portanto, ele fecha – com chave de ouro – o nosso Clube dos Cinco: Filmes de terror dirigidos por mulheres.

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