fbpx
Clube dos Cinco

Scream queens do cinema de terror

Scream queens de filmes de terror

Os estereótipos femininos estão presentes em todos os gêneros cinematográficos. Por exemplo, mas comédias românticas é comum encontrar as manic pixie dream girls. Elas são garotas fofas, ainda que de um jeito meio atrapalhado, que surgem como “solução mágica” para os problemas do protagonista masculino. Assim, no cinema de horror isso não seria diferente. Ao longo dos anos, vários estereótipos surgiram: a final girl, responsável por vencer o assassino mascarado nos slashers; e, claro, as scream queens, que transitam por vários subgêneros diferentes do terror, não estando necessariamente presas a muitas características marcantes. 

Logo, para ser uma scream queen a personagem não precisa ter aspecto virginal. Ela também não necessariamente precisa ser aquela garota que morre sem que a gente descubra o seu background. A amplitude do termo e o fato de que tudo o que as scream queens têm em comum são gritos marcantes, abrem várias possibilidades interessantes. Assim, esse estereótipo pode ser usado de maneiras diversas e com propósitos narrativos distintos.

Entre todos os lugares comuns do terror, esse é um que perdura até os dias de hoje. Porém, ele passou por várias subversões, estando presente até mesmo em filmes mais metafóricos e cults. Devido a capacidade de transitar e à multiplicidade, as personagens que se encaixam na categoria de scream queens podem complexas e interessantes, ao contrário do que muita gente pensa. E é isso que esperamos conseguir mostrar ao longo do nosso Clube dos Cinco: Scream Queens

Scream queens: um breve contexto

Entretanto, antes de abordar as nossas eleitas, precisamos fazer uma breve contextualização do arquétipo e de como ele se consolidou e modificou ao longo dos anos. Por mais irônico que soe, as scream queens surgiram ainda na época do cinema mudo, contexto no qual receberam o apelido de scream girls. Posteriormente,  termo foi modificado para o que conhecemos hoje.

Nesse sentido, um dos exemplos mais marcantes é Jane Olsen (Lil Dagover), do filme O Gabinete do Dr. Caligari. O seu rosto pálido, coberto por maquiagem escura, criava a perfeita imagem da vítima frágil, que estaria pronta para sofrer nas mãos dos vilões. No contexto em questão, as scream queens não tinham um background e surgiam nos longa-metragens somente para ajudar no efeito de choque que os diretores desejavam criar. 

Posteriormente, com a chegada com cinema falado, elas se tornaram marcantes pelos seus gritos estridentes, que ficam na cabeça de quem assiste aos filmes de terror. E é a partir desse ponto que vamos abordar o estereótipo e a sua evolução. Então, se você quer saber mais a respeito das scream queens e a forma como elas foram evoluindo no cinema, vem com a gente conferir o Clube dos Cinco especial de Halloween dessa sexta-feira.

 

Ann Darrow de King Kong (King Kong, 1933)

Scream queens do cinema
Onde assistir: Cinema Livre

Apresentar a história de King Kong atualmente é algo que se faz dispensável. De 1933 para cá, o filme ganhou várias refilmagens, com as quais o público teve mais contato do que o original. 

Para representar as scream queens da transição do cinema mudo para o falado, selecionamos  Ann Darrow, interpretada por Fay Wray. No longa, ela dá vida a uma atriz que se torna objeto de interesse do King Kong depois que a equipe de filmagens com a qual trabalha vai até uma ilha remota para fazer um filme e, posteriormente, capturar o macaco gigante para exibi-lo nos Estados Unidos.

A principal diferença entre  Ann e as scream queens do cinema mudo está na maquiagem mais sóbria. Em King Kong os realizadores fazem menos uso dos aspectos físicos para demonstrar a fragilidade da personagem e mais dos seus gritos, que são bastante agudos. Eles, por sua vez, foram gravados em uma única tomada e se tornaram icônicos na história do cinema. 

De acordo com a Vogue Portugal, em 2013, ocasião em que King Kong celebrou 80 anos, um concurso de gritos inspirado na personagem de Fay Wray foi criado pelo New York FIlm Forum. O objetivo era homenagear Wray, já que sem ela o horror presente no longa-metragem não seria tão efetivo. Especialmente para quem assiste nos dias de hoje e já teve contato com efeitos especiais mais avançados. 

Entretanto, se a gente pensa nas origens das scream queen, percebe logo que Ann Darrow ainda está bastante ligada ao estereótipo A brancura da personagem corrobora a ideia de que ela estaria ameaçada mesmo que o seu “inimigo” não fosse um macaco gigante.

Além disso, nós também não sabemos muito sobre a personagem. Logo, embora ela contribua para a construção da tensão com os seus gritos, não há muito aprofundamento, tornando-a alguém que cumpre um papel pontual dentro e não extrapola muito o arquétipo.

Marion Crane de Psicose (Psycho, 1960)

Scream queens do cinema
Onde assistir: Netflix, Telecine Play

Psicose é um filme bastante popular. Assim, muitas pessoas conhecem a sua premissa e as suas principais cenas. Inclusive, a trilha sonora de Bernard Hermann foi usada diversas vezes ao longo dos anos para construir a tensão (ou efeitos de humor) em produtos distintos.

Além de todos os motivos citados, o longa também se tornou um ícone pela presença de Marion Crane, a “protagonista”, vivida por Janet Leigh. Ainda que ela acabe morrendo na metade de projeção, sem Marion o filme de Alfred Hitchcock não seria o que é. Basta que vocês pensem na clássica cena do chuveiro para entender onde eu quero chegar com esse comentário.

Os gritos da personagem, cheios de pavor, ressoam para todo mundo que assiste a Psicose e estão entre os mais marcantes da história do cinema. Tanto é que muitas pessoas afirmam que Janet Leigh somente perdeu o seu posto de “a maior scream queen” quando sua filha, Jaime Lee Curtis, se tornou a protagonista de Halloween – A Noite do Terror, no ano de 1978. Ou seja: a sua Marion Crane sustentou a coroa por 18 anos. 

Apesar de tudo isso, Marion acabou entrando no nosso Clube dos Cinco pelo fato de que ela representa um avanço em relação ao que foi mostrado em King Kong. Claro, ela ainda conta com a aparência alva e frágil, mas a personagem tem um background que nos mostra que, talvez, ela não seja assim tão pura.

Antes de ter o azar de passar uma noite no Motel Bates, Marion roubou dinheiro do seu chefe e fugiu. Isso demonstra que de mocinha boba e indefesa ela não tem nada. E, talvez, a personagem tivesse chance de se defender caso não tivesse sido surpreendida durante um momento de vulnerabilidade.

Wendy Torrance de O Iluminado (The Shinning, 1980)

Shelley Duval em O Iluminado
Onde assistir: HBO Go, NOW

O Iluminado é considerado um dos maiores filmes de terror de todos os tempos. E isso não poderia ser diferente: com uma ambientação impecável, trilha sonora marcante e usando o isolamento dos seus personagens de forma brilhante, Stanley Kubrick entregou um longa-metragem que, na mesma medida, em que explica o que vemos em cena, deixa pendentes uma série de questionamentos. Embora a gente possa interpretar e tirar as nossas próprias conclusões, não existe uma resposta certa. E a competência do roteiro, da direção e das atuações está exatamente em construir essa ambiguidade.

Mas, hoje nós estamos aqui para falar sobre Wendy Torrance (Shelley Duvall). Ela é uma figura central no filme e uma scream queen muito mais complexa do que as outras apresentadas.

Isso começa pela construção da sua história passada. A gente sabe que o casamento dela passava por problemas, da possibilidade de que Wendy tenha sido vítima de abuso e conhece a sua fragilidade psicológica. Ao mesmo tempo, nada disso resume a personagem ou a limita, visto que ela luta com unhas, dentes e gritos para conseguir sobreviver à tragédia que a cerca e proteger Danny (Danny Lloyd), o seu filho. 

Então, mesmo com o seu psicológico abalado, ela continua lutando contra um inimigo muito mais forte. E Wendy acabou entrando na nossa lista de scream queens exatamente por isso: enquanto as outras duas perecem por sequer ter chance de se defender, ela tem essa oportunidade e faz o melhor possível com o que tem em mãos. Além disso, ela acaba misturando o estereótipo de scream queen com o de final girl, demonstrando que não existe uma caixa fechada para o termo e é, sim, possível transitar quando conveniente. 

Helen Shivers em Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado (I Know What You Did Last Summer, 1997)

Sarah Michelle Gellar em Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado
Onde assistir: YouTube

Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado foi um dos filmes que mais pegou carona no sucesso de Pânico. Contando com elementos similares, o filme de Jim Gillespe, quando colocado ao lado do de Wes Craven, parece uma cópia pouco inspirada. 

… Mas um ponto bastante positivo nesse filme é Helen Shivers (Sarah Michelle Gellar), uma scream queen que representa um avanço no estereótipo. Isso acontece, primeiramente, porque Helen não é a protagonista do filme. Ela se parece com aquela garota do grupo de amigos que morre primeiro e sem que a gente saiba muito a respeito dela. Se nas décadas anteriores a loira era usada como “símbolo de pureza”, nos anos 1990 elas se tornaram as personagens frívolas e sexualizadas. Portanto, perfeitas para morrer na primeira cena do filme. 

Apesar de ter todas as convenções do gênero pesando contra ela, Helen sobrevive por um bom tempo. Além disso, ela possui personalidade e é bastante inteligente, mostrando que beleza não é uma característica restritiva. 

Como a gente está falando de scream queens, a personagem faz mais com o tempo que tem em tela do que a protagonista, Julie. Isso acontece, principalmente, pela segunda cena do concurso de beleza. Na ocasião, Helen deveria passar a sua coroa, mas começa a gritar desesperada porque avista o “pescador assassino” atrás de Barry (Ryan Phillippe). Entretanto, ninguém parece dar muita importância ao desespero dela.

Enquanto scream queen ela se tornou mais marcante do que Julie. Para demonstrar isso, vale citar que a cena citada foi parodiada por Todo Mundo Em Pânico. Para uma paródia desse tipo ser realmente efetiva ela precisa se basear em coisas reconhecíveis pelo público. Portanto, isso demonstra que a maior scream queen de Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado é Helen Shivers. 

A Mãe em mãe! (mother!, 2017)

Jennifer Lawrence em mãe!
Onde assistir: Telecine Play

Sem dúvidas, mãe! é o filme mais “fora da curva” entre os selecionados para o nosso Clube dos Cinco. Mas é inegável que a personagem principal, vivida por Jennifer Lawrence, é uma scream queen. E uma das melhores e maiores da década. Especialmente pela forma como a personagem vai se transformando gradualmente ao longo da projeção até se tornar alguém que se encaixa nesse estereótipo. 

Ainda no começo de mãe!, somos apresentados a uma mulher tranquila, que faz tudo pelo marido e está reformando a casa em que os dois vivem do zero. Assim, ela tem a sua rotina calma, sua vida regrada e sabe exatamente como os seus dias vão transcorrer. E nós conseguimos perceber que “a mãe” gosta disso. Tanto é que sempre que alguma coisa perturba minimamente a sua paz, ela se desestabiliza e precisa tomar o misterioso líquido amarelo. 

… Mas o seu marido é um artista. Como tal, ele precisa de inspiração. E, então, ele vai aceitando cada vez mais hóspedes na casa. Eles, por sua vez, quebram as regras e a calmaria da “mãe”, que vai se sentindo cada vez mais fragilizada e insuficiente. E nós vamos assistindo aquela mulher se transformar em alguém cada vez mais explorado, cuja energia vital é sugada gradualmente até que ela precisa encontrar uma forma de retaliação. Uma forma de dar vazão a toda a dor e descaso que precisa suportar. 

E adivinhem como essa forma vem? Gritos.  De desespero, de pavor e de raiva. Todos eles marcantes e usados de uma forma muito pontual, para obter um efeito muito específico e em cenas-chave, de forma que o seu impacto nunca é perdido ou reduzido. Para dar os créditos a quem merece, Jennifer Lawrence construiu a sua personagem de uma forma tão sólida que as suas explosões tornam o desfecho de mãe! ainda mais agoniante – especialmente quando a gente pensa na metáfora que o filme propõe e nos papéis que cada um dos personagens cumpre. 

SE VOCÊ GOSTOU DE “CLUBE DOS CINCO: SCREAM QUEENS’, LEIA TAMBÉM:

Garota Infernal: Do fracasso ao clássico cult

15 comédias de terror em streaming

4 filmes para quem gostou de American Horror Story: 1984

Os 10 melhores found footage em streaming

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *