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Streamingverso: Eu vejo gente morta

ATENÇÃO: O texto contém spoilers. Se você não viu algum dos filmes e não quer estragar as surpresas, pule as partes.

Eu não preciso nem pensar antes de dizer que um plot twist, quando bem feito, é algo que fica marcado na memória.

Afinal, você está acompanhando uma história que parece ser sobre um tema quando, na verdade, é sobre outro. E aí tudo muda bem diante dos seus olhos. Mas, ao mesmo tempo, é possível perceber que as pistas de uma virada aconteceria foram deixadas ao longo de todo o filme. Você somente não conectou uma coisa com a outra.

Eu que o diga. Lembro até hoje do primeiro filme com plot twist que vi na vida, na casa de uma colega de escola que tinha conseguido colocar as mãos no VHS escondido da mãe. Depois desse pequeno delito, ela me convidou para assistir o longa em questão, um dos mais falados daquele longínquo 1999.

…E eu vi tudo roendo as unhas tamanha a tensão.

Após a revelação de que, na verdade, o Malcom (Bruce Willis) estava morto o tempo todo, eu tive a certeza de que nunca mais veria nada tão surpreendente ou um filme tão bem construído.

Para a minha sorte, eu só tinha onze anos e nada disso se concretizou. Mas um afeto por plot twists nasceu naquele exato momento.

A virada no enredo de O Sexto Sentido foi algo tão marcante para mim que acabou por ajudar a desenvolver o meu gosto por filmes de terror/suspense, que está aqui até hoje.

Como nessa época um dos filmes da franquia Pânico estava prestes a ser lançado, esse gosto foi alimentado por ele e pelos seus antecessores. E também por genéricos, como  Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado.

A partir disso, passei a ter uma falsa impressão de que eu não poderia ser surpreendida por nada mais que viesse de slashers, especialmente focados em adolescentes.

… E aí, onze anos depois do encerramento da trilogia Pânico, o antigo elenco e o diretor se reuniram para fazer uma nova versão.

Nesse ponto, eu já tinha dobrado a minha idade e visto muito mais filmes com plot twist.

Achei que não teria grandes surpresas quando o assassino do 4º volume fosse revelado. Esperava me divertir, rever caras conhecidas e que o filme fosse tão esperto quanto alguns dos anteriores.

Ainda bem que eu estava errada quanto às surpresas.

Quando o assunto é azar e uma família surtada, Sidney (Neve Campbell) é imbatível, meus queridos. Dessa vez, Wes Craven colocou como assassina a prima da protagonista (!!!), Jill (Emma Roberts), que a gente passa o filme inteiro acreditando que é uma versão atualizada de Sidney.

Nesse ponto da franquia, a personagem de Neve Campbell deixou de ser a “idiota sobrevivente” que corre escada acima. Fortalecida pelos banhos de sangue que precisou presenciar ao longo dos anos, Sidney reagiu de uma maneira inesperada quando a revelação sobre Jill foi feita. Isso, inclusive, foi outra surpresa, já que o pré-requisito pra existência do suspense adolescente é a “idiota sobrevivente”.

Aliás, falando em idiota, o personagem interpretado por Ben Affleck no terceiro filme desse Streamingverso não merece outro adjetivo.

Caso você ainda não tenha visto esse filme, a primeira coisa que eu preciso dizer é que você deveria.

A segunda é que nunca vai entrar na minha cabeça como alguém, durante uma coletiva de imprensa sobre o desaparecimento da esposa, acha que está tudo bem em sorrir do lado da foto dela.

Para mim, Nick Dunne (Affleck) selou o seu destino com aquele sorriso.

Além disso, a desatenção do cara era tão grande que todo o plano contra ele foi executado dentro da sua própria casa e ele não conseguiu perceber absolutamente nada. Sei lá, o sujeito não esquece onde colocou alguma coisa e abre uma gaveta, por exemplo, topando com um diário que ele não sabia que a mulher escrevia?

Os indícios estavam espalhados por toda a casa do casal e Nick somente foi começar a conecta-los quando já estava para lá de qualquer tipo de salvação. Ou seja: idiota. A gente precisa admitir que a Amy (Rosamund Pike) mereceu vencer esse “jogo”. Especialmente quando o oponente era uma presa tão fácil.

Para além disso tudo, o que eu aprendi com Garota Exemplar é que nem sempre a tensão e o plot twist precisam ser construídos se centralizando em provocar sustos nos espectadores.

É possível fazer um bom drama que conte com uma virada de enredo surpreendente e que te faça andar em círculos, como os personagens dessa tirinha aqui.

E isso nos leva ao quarto filme da lista:

Primeiramente, eu preciso confessar uma coisa: demorei uns 5 anos para assistir Desejo & Reparação depois que o filme foi lançado.

Pelo título, eu pensava que seria uma história nos moldes dos longas baseados em Jane Austen e isso não me interessa muito até o dia de hoje. Porém, uma amiga sempre panfletou esse filme insistentemente. Ela estava constantemente dizendo que eu me surpreenderia e acabaria gostando. Acabei vencida pelo cansaço e assisti Desejo & Reparação depois de anos.

Minha amiga estava certa.

Você passa o filme todo pensando: “ah, a Briony (Saoirse Ronan) fez uma coisa horrível, mas tudo se acertou”.

Essa sensação persiste até os quinze minutos finais quando você descobre que nada se acertou. Na verdade, a história que você acompanha até ali saiu da mente da própria Briony, que decidiu escrever sobre o seu passado, depois de já idosa e consagrada como escritora.

O rapaz que ela denunciou por estupro morreu durante a Segunda Guerra Mundial. A irmã dela, por sua vez, também acabou morrendo durante uma explosão. Os dois não ficaram juntos, Briony não teve a chance de procurar por eles para tentar uma redenção. Nada.

E aí você se coça de ódio da personagem. E a tendência é que você continue se sentindo dessa forma ao longo dos anos (eu me sinto), o que me faz achar essa virada de enredo um plot twist dos bons.

… Assim como o nosso quinto eleito, que além de trazer uma guinada na trama, deixa no ar uma ambiguidade sobre a qual não consegui me decidir até hoje.

Assisti Ilha do Medo tardiamente e nessa época já tinha visto Os Infiltrados, também do Martin Scorsese. Embora o twist de Os Infiltrados seja incrível, Ilha do Medo acaba me ganhando pelas possibilidades de leitura envolvidas na virada do enredo.

Caso você não saiba do que se trata, dois investigadores vão até a ilha Shutter. O objetivo é investigar o desaparecimento de uma paciente de um “asilo” para pessoas “criminalmente insanas”. Uma vez no local, ambos começam a ser afetados pelos acontecimentos e pela própria atmosfera do lugar.

Um deles, porém, se mostra mais suscetível do que o outro a tudo o que está acontecendo. De repente, a gente descobre que, na verdade, ele era mais um paciente do asilo. Teddy (Leonardo DiCaprio) estava preso no local por ter matado a sua esposa que, por sua vez, afogou os filhos do casal. O protagonista tinha delírios sobre ser um investigador desde então.

Mas, ao mesmo tempo, algumas coisas – como a rebelião dos internos – deixam no ar a possibilidade de que Teddy realmente fosse um policial. Seguindo por essa linha de pensamento, a direção do asilo teria inventado toda essa história para que ele não contasse a mais ninguém tudo o que havia presenciado. Afinal, o isolamento geográfico do local beneficiava a impunidade dos diretores.

Como eu estou falando sobre plot twists, não poderia deixar essa lista ter continuidade sem criar o meu. Então, fiquem atentos porque o tema acaba de mudar.

Antes de prosseguir na leitura, tente advinha-lo somente para imagem abaixo. Caso você consiga, conte para o Maratonista de Menu.

Não faz ideia? Pois bem: o novo tema é filmes que gostariam de ter me surpreendido, mas, na verdade, eu sabia exatamente como eles terminariam. Ou não sabia, mas eles também não tinham ideia de para onde caminhavam.

E American Son foi escolhido porque embora o roteiro tente fazer a gente acreditar que o filho de Kendra (Kerry Washington) pode estar vivo, desde a primeira cena eu tinha a certeza de que ele não estaria. Pelo menos não se o filme quisesse realmente dar o seu recado de uma maneira eficaz – o que, ainda bem, ele quis.

Porque nem sempre previsível precisa significar ruim – e o meu gosto por comédias românticas não me deixa mentir -, o próximo filme desse Streamingverso surgiu na minha cabeça quando pensei a respeito de plot twists que consegui adivinhar com facilidade.

Em termos de sinopse, Boa Noite, Mamãe conta a história de uma mulher que vive em uma casa relativamente isolada com os seus filhos gêmeos. Em um determinado momento, ela sai do local para fazer uma cirurgia plástica e volta completamente diferente, tratando um dos seus filhos com descaso.

Embora o roteiro tente a todo tempo fazer com que a gente foque nas atitudes da mãe para com o garoto em questão, para quem foi alfabetizado em plot twist por O Sexto Sentido, esse é bem fácil de perceber.

Todas as cenas que envolvem refeições, inclusive, deixam bem claro que um dos meninos estava morto. Existe somente um prato na mesa, por exemplo – exatamente como na casa de Malcom em todos os momentos que ele visita a sua esposa.

Mas se no filme de M. Night Shyalaman ainda é possível pensar que o trauma vivido pelo casal causou um afastamento, não existe qualquer justificativa para que a mãe comece a destratar um dos filhos após uma plástica.

Mesmo que o filme tente te fazer especular o que pode ter acontecido com ela durante o procedimento citado, ao não apelar para algo sobrenatural e, portanto, descambar para uma virada que seria risível, ele não consegue fazer isso e nem te dá elementos suficientes para pensar em uma explicação dessa natureza – exatamente como o próximo longa listado.

Em linhas gerais, Eli fala sobre um garoto que tem uma doença rara e não pode se expor a qualquer ambiente externo sem apresentar sintomas.

Um belo dia, uma médica, que afirma ter obtido sucesso com pacientes apresentado a mesma condição, surge na vida da família de Eli. Então, todos eles se mudam temporariamente para a clínica comandada por ela em busca de uma cura para o menino.

Mas, depois da mudança, coisas estranhas começam a acontecer. O espectador descobre que, na verdade, os sucessos não existem. Todos os pacientes da médica morreram em uma determinada fase do tratamento. Lutando pela sua vida, Eli decide escapar a qualquer custo.

A partir desse ponto, os pais do garoto começam a ter reações estranhas e o espectador descobre que, na verdade, a doença não existe. A mãe de Eli havia feito um pacto com o diabo (?) para ter um filho (??) e a médica era uma freira (???), que performaria um exorcismo (????).

Entretanto, não existe uma pista que leve até essas conclusões. Fica parecendo que o roteiro não sabia mais para onde ir com a história da doença. Ou mesmo como construir a tensão do filme a partir dos elementos que já tinha em mãos. Assim, acaba apelando para o sobrenatural e conseguindo um dos piores plot twists que eu já assisti.

Aliás, a Netflix tem feito vários filmes originais que contam com essas viradas de enredo e poucos conseguem escapar do desastre completo. O próximo item da nossa lista é mais um dos que realmente falham miseravelmente em surpreender.

Desde a cena do hospital, quando Jennifer (Brenda Song) ainda está sem memória, achei bem estranho ninguém pedir algum tipo de comprovação da ligação entre ela e Russell (Mike Vogel). As pessoas simplesmente entregam a mulher nas mãos do seu suposto marido e é isso.

Então, eles vão para uma casa isolada e ela começa a ter a sensação de que aquela ali não é a vida dela. Russell começa a agir de forma cada vez mais estranha e controladora. Nesse ponto, o que já estava errado de saída, escala até a gente descobrir a verdade: eles nunca foram casados e ele é somente um stalker.

GRANDE SURPRESA.

Se pelo menos o jogo de gato e rato entre eles fosse bem construído, ainda daria para passar um pano. Mas a sequências são recicladas e a gente nunca consegue ter uma conexão com a protagonista, de forma que o desfecho dela se torna indiferente para quem assiste.

Para finalizar essa lista, não poderia faltar o filme abaixo:

Em Pânico 3 existe um personagem que explica aos demais que em franquias de suspense/terror, o terceiro filme existe para mudar as regras do jogo.

Devido a essa característica, a final girl (a última sobrevivente) pode deixar de ocupar essa função, por exemplo. O importante é que algo inusitado aconteça, abrindo outros caminhos para uma possível continuação.

E o filme até tenta. Eu juro que ele faz um esforço.

Mas, quando muito é exposto sobre o passado de Maureen (Lynn McRae), a mãe de Sidney, fica óbvio que o assassino do terceiro filme será um membro da família da protagonista. As fotografias de Maureen deixadas ao lado dos corpos só reforçam isso.

Nesse ponto da franquia, o público já sabe que Sidney foi criada pelo seu pai e sem qualquer contato com outros parentes. A gente também sabe que a mãe da jovem a abandonou. Além disso, somente os atores que estão envolvidos na sequência de Stab estão sendo assassinados. Esses fatores voltam os olhos do público para alguém que está envolvido na produção e, simultaneamente, faz parte da vida de Sidney.

Pronto. Não é surpresa nenhuma quando a máscara do novo Ghostface cai e damos de cara com Roman Bridger (Scott Foley), que não só é o diretor do filme fictício como também é meio irmão de Sidney .

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