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Streamingverso: “Sem sopa para você!”

Quando alguém me diz que não gosta de séries de comédia, sinto certa dificuldade para entender o motivo.

Porém, rapidamente eu me lembro que as pessoas costumam dizer o mesmo sobre musicais. Nos dois casos, eu imagino que isso esteja ligado ao formato que popularizou os gêneros citados.

No caso dos musicais, para mim, muitas pessoas que afirmam não gostar do gênero pensam somente em filmes nos quais as pessoas cantam e dançam sobre simplesmente tudo o que acontece em suas vidas, independente de plausibilidade.

Porém, pensar dessa forma é desprezar possibilidades, já que existem coisas como Dançando no Escuro, Hedwig: Rock, Amor e Traição ou mesmo Rocky Horror Picture Show. E se a gente quiser ficar mais apegado ao que se tornou clássico, pensar assim é ignorar também Amor Sublime Amor.

Ao transportar isso para as comédias, em grande parte das situações, quem afirma categoricamente que não gosta do gênero está pensando somente em sitcoms, um formato que, atualmente, nem encontra tanto espaço nas emissoras. Talvez o seu legado encontre, mas as sitcoms propriamente ditas foram bem menos numerosas na última década (salvo reboots e remakes).

Assim, mesmo com essa percepção do público de que comédias são forçadas e artificiais (o que, em grande parte, é provocado pelas “risadas de fundo”), a comédia é um gênero variado e que sabe se adaptar aos novos tempos, mesmo quando “bebe” da tradição.

…E se a gente está falando de tradição, é impossível ignorar Seinfeld, que se tornou referência de cultura pop e é encarada como “o pai dos sitcoms”.

Independente do fato de que algumas piadas se tornaram datadas, a série de Jerry Seinfeld serviu como referência para tudo o que veio depois dela nesse “subgênero”.

Veja só: trata-se de um grupo de amigos vivendo em uma cidade populosa, passando por dificuldades em suas vidas afetivas e interagindo entre si. Soa familiar? Pois é. Seinfeld é detentora de um legado gigantesco e que deixou a sua marca em tudo o que foi produzido depois dos anos 1980.

Além disso, eu gostaria de apontar para o fato de que Elaine (Julia Louis Dreyffus) foi uma verdadeira pioneira quando o assunto é falar sobre a sexualidade feminina. A personagem de Seinfeld discutia abertamente questões como métodos contraceptivos e masturbação com os seus amigos homens.

Elaine também foi importantíssima para ensinar às pessoas que quando se fala de humor, as mulheres podem ser tão engraçadas quanto os homens  – ainda que outras tenham vindo antes dela, como as maravilhosas Golden Girls.

Para mim, ela foi o primeiro caso de personagem que se tornou tão querida quanto os homens com quem dividia a cena e que todos consideravam tão engraçada quanto.

Assim, com o perdão do meme, a gente pode dizer que Elaine andou para que Rachel (Jennifer Aniston), Mônica (Courteney Cox) e Phoebe (Lisa Kudrow) pudessem correr.

Quer você goste, quer não, o negócio é que não adianta espernear: Friends é um dos maiores sucessos da TV estadunidense de todos os tempos. A série terminou em 2004 e até hoje consegue quebrar a internet quando uma possibilidade de reunião do elenco é anunciada. Coisa pra poucos.

Além disso, quer você problematize ou não, a série tem muitos feitos que devem ser considerados pensando a época em que foi feita. Por exemplo, ainda em seus anos iniciais, ela mostrou um casamento entre lésbicas.

Porém, para além desses pontos, Friends conseguiu fazer exatamente a mesma coisa que Seinfeld: se tornara referência de cultura pop e influenciar o que veio depois, sendo para os anos 1990 o que a sua antecessora foi para os anos 1980.

Além disso, a série assegurou que as sitcoms teriam o seu lugar ao sol por mais uma década, já que lá em 2005 (apenas dois anos depois do fim de Friends), mais um programa sobre um grupo de amigos vivendo em Nova York foi lançado.

Da mesma forma como alguns temas já presentes em Seinfeld foram atualizados em  Friends, How I Met Your Mother trouxe para a comédia ainda mais modernização.

Como é sempre mais fácil perceber isso pelas personagens femininas, é impossível não comentar que Robin (Colby Smulders), ainda no primeiro episódio da série, surge como a “garota perfeita” para Ted (Josh Radnor). Porém, ela não quer se enquadrar nesse estereótipo e, de cara, deixa claro que não deseja se casar, não quer ter filhos e que o seu foco é a sua carreira.

Também na primeira temporada, Lily (Alyson  Hannigan) sente que deixou de lado o seu sonho de se tornar artista para seguir a vida com Marshall (Jason Segel). Assim, ela simplesmente abandona o relacionamento de anos para tentar seguir o seu desejo. Ainda que Lily acabe voltando para o seu antigo emprego e para a vida ao lado do namorado, tudo isso foi escolha dela.

Mas, assim como as demais sitcoms apresentavam pontos problemáticos – e eu não estou falando de gente que analisa o Ross (David  Schwimmer) pela ótica de problematizações muito mais recentes do que o roteiro de Friends -, entre outras coisas, How I Met Your Mother serviu para mostrar para a gente que, talvez, as sitcoms não tenham mais tanto espaço assim na “Era do Streaming”. Em sua reta final, a série se tornou arrastada e o humor que já não funcionava mais tão bem assim. 

Em partes, isso se deve a outros programas que foram surgindo ao longo dos anos e se mostrando muito menos coniventes com um lado da comédia que, infelizmente, não tem pudor em fazer piadas com minorias sociais.

Ainda que, cronologicamente, Community não tenha sido a primeira série que abre mão desse tipo de piadas, ela é a primeira que me vem na cabeça. Basta olhar para a foto que vocês vão conseguir entender o porquê.

A figura do Pierce (Chevy Chase), inclusive, serve para demonstrar isso com clareza. Por ser o mais velho e, logo, fruto de um outro tempo, o personagem até tenta emplacar esse tipo de piada com os seus colegas de faculdade, mas ele logo recebe olhares de julgamento e o seu comportamento nunca é incentivado.

Assim, o humor de Community é centrado em referências a filmes, séries e também no próprio background de cada um dos alunos que tornam a Universidade de Greendale um verdadeiro hospício.

Outro ponto que eu considero bastante interessante é que os episódios não se parecem com “eventos isolados”, que se desenrolam ao longo de um capítulo e nunca mais são retomados.

Esse “abandono de plots” é algo comum às sitcoms. Por vezes, um determinado personagem passa um período fazendo uma reflexão que, depois, é desprezada em nome de mantê-lo no arquétipo ao qual pertencia (“o mulherengo”, “o romântico”, “a excêntrica”, para citar alguns).

Em Community o que eles aprendem não é deixado de lado pelo roteiro e serve como evolução. Além disso, os personagens não são uma coisa só ao longo da série. O que eles vivem possui impacto em quem eles são.

Para mim, isso demonstra uma evolução em termos de comédia, já que um dos incômodos mais frequentes que costumo ouvir as pessoas relatando é essa impressão de que não existe uma história que vai progredindo. Quando muito, tem-se um drama de casal. Ou então uma busca do protagonista e todos os demais são “muletas” para a sua trajetória.

Essas mudanças também podem ser notadas na próxima série do nosso Streamingverso.

Criada por Tina Fey, a série usa de um humor que beira o absurdo justamente para fazer crítica. Tanto é que 30 Rock se passa no próprio prédio da NBC – por isso o nome – e os seus personagens são propositalmente estereotipados.

Acompanhem comigo: Jack (Alec Baldwin) é o empresário capitalista que só se importa com o lucro, além de ser uma pessoa que não tem o menor afeto pela TV e se torna presidente da rede apenas pelas possibilidades de se tornar ainda mais rico.

Além dele, ainda tempos os protagonistas do TGS (programa fictício que a série explora os bastidores): Jenna (Jane Krakowski) é a estrela que não aceita dividir espaço, obcecada pela própria imagem e que está sempre disposta a tudo para conseguir cada vez mais atenção; e Tracy (Tracy Morgan) é o “ator problema”, cujo comportamento é completamente condenável, mas o público ama e a emissora “passa pano” para todos os absurdos em nome do dinheiro.

Ao adotar esse tom de exagero para fazer o público rir, 30 Rock não perde a crítica de vista em nenhum momento, algo que merece ser elogiado em uma série que durou sete temporadas. Além disso, o programa tem um formato bastante curioso, não se encaixa exatamente no sitcom, assim como Community, mas ao mesmo tempo flerta com o mockumentary.

E falando em mockumentary, seria impossível ignorar o sucesso que esse tipo de série fez a partir da adaptação de The Office para a TV estadunidense. Entretanto, como eu e minha casa serviremos a Amy Pohler sempre, esse Streamingverso trará outro exemplar do gênero:

Caso você não saiba o que é um mockumentary, trata-se de um filme ou série que usa características comuns aos documentários, mas deixa claro o tempo todo que, na verdade, é uma obra de ficção.

Ou seja: os personagens dão entrevistas, são mostradas cenas de “bastidores” das situações vividas por eles, mas a série/filme não quer ser documento de nada e nem possuir algum valor desse tipo.

Antes de ver Parks & Recreation, se alguém falasse para mim que uma série sobre a divisão de parques e recreação de uma cidade fictícia em Indiana se tornaria uma das minhas preferidas, eu responderia mais ou menos assim:

Mas o fato é que aconteceu.

Boa parte disso se deve aos personagens carismáticos e à boa história. Além de, claro, a gente conseguir perceber todas aquelas pessoas crescendo (olha onde o Andy (Chris Pratt) termina!) e às críticas feitas a vários pontos da cultura americana.

É só lembrar de todo o plot da eleição da Leslie Knope (Amy Poheler), por exemplo, ou mesmo da rivalidade entre ela e o Jamm (Jon Glaser), já que os dois acreditam em coisas completamente diferentes. Também dá pra pensar na fábrica da Sweetums.

Além disso, a própria Leslie está o tempo todo dizendo às pessoas “esse comentário é ofensivo” ou “isso não deve ser feito dessa maneira”, deixando claro a pouca vontade em fazer uso de um humor datado (e sem graça) e ainda mostrando que é possível sim ser hilário sem ofender absolutamente ninguém.

Aliás, esse humor que não ofende, demonstra que é possível ser inclusivo e ainda consegue ser excelente é uma característica marcante na próxima série:

Só para começar, o capitão da 99ª Delegacia do Brooklyn é negro e gay. Ele não esconde isso em seu ambiente de trabalho e, aos poucos, a gente descobre o quanto Ray Holt (Andre Braugher) lutou para conseguir chegar onde chegou.

Além dele, a gente ainda tem a Rosa (Stephanie Beatriz), que é bissexual e assume a sua sexualidade para os colegas de trabalho quando começa a namorar uma moça. E ela ainda é latina, assim como a Amy (Melissa Fumero), personagem completamente ambiciosa e que está constantemente disputando com o Jake Peralta (Andy  Samberg) o posto de melhor detetive da 99.

A desconstrução de estereótipos é tão maravilhosa que o Terry (Terry Crews), aquele homem gigantesco, poderia muito bem ser o policial durão e grosseiro, mas, na verdade, ele é sensível, gosta de ler e é completamente devotado à sua família – especialmente depois do nascimento de suas filhas gêmeas.

E, no meio de tudo isso, Brooklyn 99 ainda consegue ser engraçada demais. É só pensar, por exemplo, no desafio do Halloween, que existe desde a primeira temporada e a cada ano se torna mais elaborado e mais divertido de assistir. Ou mesmo em todas as situações que eles precisam se disfarçar para conseguir descobrir alguma coisa.

Por tudo o que foi citado, Brooklyn 99 mostra, definitivamente, que a ofensa está perdendo espaço no humor mainstream. Embora a gente não possa dizer que ela foi erradicada, podemos dizer que diminuiu drasticamente e o sucesso que essas séries com “um novo humor” vêm alcançando deixa claro que é possível ser diferente, ainda bem.

E falando em diferente, seria impossível terminar esse Streamingverso sem destacar um gênero que tem ganhado cada vez mais espaço e se mostrado rico, cheio de possibilidades e divertido à beça: a dramédia.

Miriam “Midge” Maisel (Rachel Brosnahan) começa a frequentar clubes de stand-up no centro de Nova York para acompanhar o seu marido, Joel (Michael Zegen), que sonha com uma carreira como comediante.

Ela observa as apresentações, anota coisas relacionadas à aprovação do público e tenta “subornar” os donos dos clubes com comida para fazer com que Joel consiga sempre o melhor horário. Nesse primeiro momento, Midge não tem qualquer ambição de se tornar uma comediante.

Até que a sua vida muda por completo. Em um importante feriado judeu, Joel decide colocar um ponto final do casamento dos dois. Sem saber o que fazer da sua vida, Midge bebe demais e acaba indo parar no clube de stand up.

De pijama, embriagada e completamente sem filtros, ela sobe o palco e começa a falar sobre a sua vida no meio da madrugada. Surpreendentemente, a protagonista de The Marvelous Mrs. Maisel consegue fazer o público rir – muito mais do que o seu marido conseguia.

A partir desse ponto, o público acompanha Midge descobrindo o seu talento, enfrentando os preconceitos da sociedade contra mulheres que fazem humor (a série se passa nos anos 1950) e construindo uma carreira de sucesso no stand-up.

Porém, Mrs. Maisel tem alguns contornos de drama por explorar questões da sociedade da época e do papel das mulheres nessa sociedade. Tudo isso é feito com leveza, mas a gente consegue perceber que existe uma carga emocional no pano de fundo, fazendo com que a série seja uma dramédia.

E uma de sucesso. Ao longo de suas três temporadas, The Marvelous  Mrs. Maisel foi lembrada em premiações, venceu prêmios importantes, conquistou o apoio da crítica e se tornou um dos produtos originais da Amazon mais comentados e celebrados, assim como Fleabag.

Se você circulou pela Terra em 2019, com certeza ouviu algum comentário sobre Fleabag, uma dos programas mais elogiadas do ano. No Rotten Tomatoes, a série de Phoebe Waller-Bridge recebeu 100% de aprovação e a aclamação não diminui muito se a gente observa o Metacritic e o IMDb.

Porém, ao contrário do que muitas pessoas pensam, Fleabag foi lançada ainda em 2016, pela BBC. Mas não fez tanto barulho quanto em seu segundo ano.

Apesar disso, para mim, as duas temporadas não são dissociáveis e deveriam sempre ser consumidas conjuntamente. Se você foi das poucas pessoas que viu a série em 2016, recomendo que reveja tudo junto para perceber o que eu estou falando.

Uma das grandes sacadas de  Phoebe Waller-Bridge com Fleabag foi não dar um nome para grande parte dos seus personagens, protagonista inclusa. Ao fazer isso, a roteirista conseguiu atingir o seu objetivo de fazer com que eles pudessem ser qualquer pessoa e, logo, a identificação do público aumentasse.

Ainda que a personagem principal faça muitas coisas condenáveis ao longo das duas temporadas de Fleabag, é impossível que você não se identifique com pelo menos uma delas. Ou que você não tenha pensado em reagir exatamente da mesma forma em alguma situação.

A “Fleabag” é uma pessoa quebrada, com a autoestima toda prejudicada e que lida com o peso da culpa que carrega pela morte de Boo (Jenny Rainsford) da forma que consegue lidar – o que significa que, nem sempre, isso ocorre de um jeito “correto”.

Além disso, ela é preterida por várias pessoas em sua vida e encontra nos seus relacionamentos tortos o afeto que consegue, da forma como ele se manifesta, sem questionar muito.  E, para mim, é um pouco por isso que a gente acaba se apegando tanto ao “Padre Gato” (Andrew Scott) – e a protagonista também.

Outra grande sacada da série é a quebra da quarta parede, que aproxima a gente do que a personagem principal está pensando e faz com que os telespectadores consigam entender as suas motivações e as suas dores, além do seu senso de humor distorcido.

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